terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Mudar de uma cidade grande para uma cidade pequena

São Paulo é o que posso chamar de cidade grande. Bom, para mim é. São Paulo é a sexta maior cidade do planeta e décimo PIB do mundo. É, de longe, a maior cidade do Brasil, responsável por mais de 12% do PIB. Isto porque não estou falando da Grande São Paulo, que inclui as cidades periféricas que estão conurbadas com a cidade. Para mim, não há melhor cidade.

Claro, há seus pontos negativos. O trânsito, a poluição, a violência. Mas um bom paulistano sabe como lidar com estes problemas. O trânsito, por exemplo, contornava fazendo coisas dentro do carro: colocava um curso de uma língua estrangeira para treinar ou fazia a barba (com barbeador elétrico e carro com insul film, claro). A poluição, era só ligar o ar condicionado. E trocar o filtro constantemente. Na verdade se acostuma. A violência é relativa. Não acho São Paulo violenta. Na verdade acho até bem segura. Como todas as cidades, tem que tomar suas precauções, claro.

Mas há muitos pontos positivos! E para reportá-los, vou contar uma breve experiência de vida. Certo dia meu chefe, o diretorzão, me chamou na sala dele:

-O senhor fez um ótimo trabalho últimamente. - começou o diretor - Gostaria de saber se estaria interessado em se mudar para uma filial que estamos abrindo. É uma importante filial, na verdade, deverá ser a que mais vai crescer do nosso grupo.
-É uma grande honra, chefe! - respondi.

Na verdade aquele tinha sido um dia ruim, cotidianamente falando. Não tinha sido um dia completamente normal. De manhã, havia sido fechado no trânsito várias vezes, pessoas haviam passado no semáforo vermelho, havia até aberto as janelas para bater boca com um sujeito. Havia também caído um dilúvio na cidade. Era um daqueles dias que você pensa (acho que as pessoas devem pensar) que era melhor estar em uma fazenda tranquila, completamente livre destes tipos de problemas. Logo, topei na hora.

Me enviaram para uma cidadezinha bem menor que São Paulo. Na verdade é uma cidade com menos de 50 mil habitantes, incrustada em praias paradisíacas. Você deve pensar que isto realmente é o Paraíso! É o Paraíso. Até você começar a morar nele.

De início, tudo é bonito e legal. Peguei uma boa casa, ia à praia de tardezinha. O Prefeito da cidade te cumprimenta e você janta com ele de vez em quando. As pessoas te cumprimentam na rua. Além disso, há coisa melhor do que ir a pé para o trabalho, que fica a três quarteirões da sua casa na praia?

Isto, entretanto, não dura muito. Ou pelo menos não durou para mim. Os pontos negativos de uma cidade pequena, em minha opinião, suplantam, e muito, os positivos. Em uma cidade pequena, como disse, as pessoas dão bom dia. Mas são TODAS as pessoas. E se você não responde fica com fama de mal educado. Imagine eu, paulistano, que não sei nem o nome do meu vizinho de andar em São Paulo, ter que dar bom dia para absolutamente todo mundo! E tem mais: você tem que saber o nome das pessoas. Com o tempo acaba decorando. Em uma cidade pequena, como todos se conhecem (e vou dizer, TODOS se conhecem MESMO!), você tem que tomar certos cuidados, para não dizer muitos. Qualquer coisa que você faça, mas absolutamente qualquer coisa, todos ficam sabendo. Você comprou um carro novo? Amanhã sai no jornal. E não é exagero, não! Você REALMENTE sai no jornal com seu carro novo! No meu aniversário saiu uma nota no jornal me dando os parabéns. E, se você não tomar cuidado, sai no jornal a toda hora. Até na empresa a vida é muito diferente. Pense muito bem em dar um aumento para alguém. Amanhã, todos saberão, na cidade inteira! Para contratações, além do trâmite normal, há uma etapa a mais: pergunto para os meus funcionários se fulano de tal, candidato a assistente financeiro, por exemplo, é um cara bom. Todos eles já o conhecem, antes do cara entrar na empresa. Já o viram por aí, já brincaram com ele quando crianças, sabem que ele é filho do José, que é primo do João.

Quer ir ao supermercado? Antes de ir se abasteça de paciência. Para chegar lá de carro, vai encontrar uma meia dúzia de carros parados no meio da rua, cujos motoristas estão batendo papo um com o outro, trancando a rua por uns segundos. Tudo bem, isto não é problema: em São Paulo talvez pegue trânsito e demore 30 minutos para chegar. Mas uma vez no supermercado em São Paulo, faço minhas compras e vou embora. Na cidade pequena, ao estacionar já vai ter que parar para cumprimentar algum conhecido e, não raro, bater papo. E nada de coisas importantes. É um papo mais ou menos assim:

-Opa!! Tudo bem? - Pergunta o conhecido que acaba de me encontrar saindo do carro no estacionamento do supermercado
-Tudo bem, e você? - Respondo
-Tudo ótimo! Você viu o tempo que maluco? Hoje de manhã fez sol e agora de tardezinha caiu o maior toró.
-Que coisa, hein?
-E você viu o Henrique, o que aconteceu? Tomou uma picada de aranha!
-Ahn... não vi, não. Foi grave?
-Foi sim! Saiu no jornal, você não viu?

E por aí vai... Tudo papo furado! Ao pegar o carrinho, mesma coisa. Ao fazer as compras, igualmente. Fora que você pode ter o azar de encontrar mais de duas pessoas conhecidas ao mesmo tempo no supermercado. Daí prepare-se para voltar para casa depois de uma hora parado batendo papo furado. Fora quando não se metem nas suas compras: "você vai comprar este iogurte? Vixi, ouvi falar do seu Manoel que esse iogurte faz mal...". Oras, bolas, me deixem comprar o que eu quiser! Aliás, este é outro ponto negativo: não há muita variedade no supermercado. Não vai encontrar um queijo diferente (nem um queijo que considero normal, como o brie). Não vai encontrar nem duas marcas diferentes de qualquer coisa. As grandes marcas (Sadia, Perdigão), não chegam na cidade pequena. O tamanho do supermercado é normal: parecem os supermercados Pão de Açúcar em São Paulo, mas com menos variedade.

Um dia andei pensando porque as pessoas são assim em uma cidade pequena. Porque, afinal de contas, em São Paulo também temos bairros. E em bairros poder-se-ia, muito bem, ter comunidades, nas quais as pessoas fossem assim, de bater papo por aí, dar bom dia. Só que em São Paulo não são (ou são, mas só entre a terceira idade e não com todos como em uma cidade pequena). Porque? Para melhor pensar, neste dia, achei que deveria ir a um Mc Donald´s. Que Mc Donald´s? Não há Mc Donald´s! Nem cinema, nem teatro. Shopping? Ah, shopping tem! É um "complexo comercial" de10 lojinhas, que chamam orgulhosamente de Shopping Center! Então cheguei a uma conclusão: na cidade pequena não se tem o que fazer! As pessoas, então, tem que interagir entre si de uma forma mais próxima.

Um dia também precisei de dentista. Fui em um dos únicos dentistas da cidade. Claro, ele me conhecia. E, claro, achou que eu nado no dinheiro. A obturação custou o dobro do que custava em São Paulo. Não bastasse isso, um mês depois, tive que refazê-la, porque ficou mal feita. Fiz em São Paulo, por isso sei que em São Paulo custa a metade. Se você tiver um ataque cardíaco, se prepare para morrer. Há um único hospital na cidade, público, sem muitos recursos. O outro, mais próximo, só a 40 quilômetros.

Na verdade, estou dizendo isto do meu ponto de vista. Já acompanhei um cidadão da cidade pequena em um treinamento em São Paulo. Na verdade já acompanhei vários. E, invariavelmente, eles ficam maravilhados com São Paulo, mas a detestam. Levo-os no Shopping Center de São Paulo e eles tem dificuldades para subir na escada rolante. O trânsito, para uma pessoa destas, é algo impensável. Uma avenida como a Marginal, com suas 7 pistas, é algo que não passa pela cabeça deles. Não conseguem imaginar como os paulistas conseguem viver com tanta poluição e trânsito. A cidade é cinza!! Como é possível viver em um prédio tão alto (na cidade pequena o máximo são 3 andares) e em um apartamento tão apertado? Porque as pessoas em São Paulo são tão desconfiadas uma das outras? Não há confiança no próximo a ponto de não poder dar bom dia no meio da rua?

Bem... é o ponto de vista deles. Vejo a dificuldade deles em se adaptar em uma cidade do tamanho de São Paulo, a ponto de você pensar que eles nunca se adaptariam. Quanto a mim, ainda não me adaptei a cidade pequena. Tanto que volto todos os finais de semana para São Paulo, apesar das praias paradisíacas. Particularmente, adoro São Paulo. Se você nasceu em São Paulo ou cresceu ou mesmo se acostumou com São Paulo, fique pense muito bem se receber uma proposta para ser transferido para uma cidade pequena. O contrário, ou seja, se você nasceu em uma cidade pequena e está para se mudar para São Paulo, não posso dizer. Por dois motivos: primeiro por que, como disse, adoro realmente São Paulo e, segundo, não passei por isso. Mas posso dar uma dica: minha mãe, que nasceu em uma cidade microscópica no interior de São Paulo, sempre quis voltar a viver em uma cidade pequena.

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